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Informações de São Mateus e suas ruas grafitadas ganham o mundo; saiba quem são os paulistanos que participam dos 50 anos do hip hop nos EUA

São Mateus e suas ruas grafitadas ganham o mundo; saiba quem são os paulistanos que participam dos 50 anos do hip hop nos EUA

Fundadores do coletivo Opni, Val e Toddy são os únicos brasileiros a participar oficialmente dos eventos de comemoração.

12/06/2023 ás 14:43:00

Fonte: Por Claudia Castelo Branco, g1 SP — São Paulo

Em Nova Orleans, nos Estados Unidos, dois brasileiros participam desde 19 de maio das celebrações do 50º aniversário do hip hop no mundo. Val e Toddy são os únicos brasileiros que foram oficialmente convidados para as comemorações a convite da organização do evento em Columbus.

Eles fazem parte do Opni, coletivo de grafiteiros de São Mateus, Zona Leste de São Paulo, que nasceu em 1997 e é formado por jovens da periferia.

No momento em que conversava com o g1, Val pintava um mural em Arabi, ao lado de Nova Orleans. “Um bairro mais de negros e latinos”, explica o artista que não gosta de ser chamado de artista. "Somos uma ferramenta da arte", define.

Val e Toddy já passaram por Columbus, Ohio, onde participaram da Black Expo. Nesse evento, Bone Thugs N Harmony foi homenageado e conheceram Lawrence Krishna Parker, mais conhecido pelo seu nome artístico KRS-One, um dos pioneiros da cultura hip hop.

 

No hip hop, são três as vertentes da arte: rap (música), breakdance (dança) e grafite (desenho).

 

De lá, foram para Cleveland, onde fizeram um workshop para uma escola formada por meninos negros. "Uma escola referência, onde criam lideranças da cidade", conta Val.

 

Era uma vez em São Mateus

 

O nome Opni tem relação com "óvni" (objeto voador não identificado). No caso, Pichadores Não Identificados. Assim como o hip hop, o Opni surgiu num bairro que enfrenta uma série de problemas sociais e econômicos, incluindo violência, racismo, tráfico e carência de infraestrutura e educação: São Mateus.

A vida escolar foi dura para os amigos Val e Toddy. Excluídos na adolescência por serem “diferentes", com supostas dificuldades de entrosamento e aprendizado, criaram um universo onde poderiam ser aceitos como são, onde pudessem combater tudo com arte e acolher outros. Val, conta, é disléxico. O papo com o g1, se pudesse ser resumido, seria uma versão de "tudo em todo lugar ao mesmo tempo". "E com isso a gente foi modificando alguns significados do óbvio", lembra Val.

Opni, nesse sentido de movimento numa região periférica, virou uma palavra de resistência. "É o grafite. É uma luta. É a questão racial. É a questão da moradia. É a física quântica. É o candomblé. É uma parada para buscar novos horizontes. É com essa energia que a gente trabalha", explica a dupla.

No decorrer do tempo, foram adquirindo outras ideologias, como a questão do hip hop, que é uma cultura da paz e simboliza um pensamento crítico.

O destino mudou a vida de antigos integrantes do Opni: alguns abandonaram a atividade pela família e pelo trabalho, outros foram presos e outros morreram. O grupo, no entanto, manteve seus objetivos, consolidando o seu trabalho nas artes visuais.

Val explica que muita gente encara o grafite com o intuito de domesticá-lo. “Mas o grafite é poder estar na rua, feito por pessoas que estão interagindo ali na rua. Se tiver alguma regra na rua, é a questão da liberdade, de a pessoa poder se expressar na sua melhor forma."

No pensamento do Opni, predomina a presença e a militância em relação à cultura, à imagem e aos problemas da comunidade afrobrasileira, além das questões político-sociais, traço marcante no trabalho do coletivo. A essência está nas inquietações visuais. Se desenhar é observar a sociedade, a dupla vem cumprindo o objetivo com o que define como "inquietações visuais".

Em 2019, em um prédio na na região da República, Tebas, um dos mais talentosos arquitetos de São Paulo do século XVIII, foi homenageado pelo Grupo Opni: "Tebas o Negro Arquiteto" é o nome do grafite.

Galeria a céu aberto

 

Um dos principais projetos do grupo é a Favela Galeria, onde os artistas mantêm, desde 2009, em sua comunidade de origem, um percurso repleto de intervenções. São ruas e vielas grafitadas que dão aos muros de São Mateus um colorido diferente.

Em 2014, o grupo venceu na categoria “Territórios Culturais” do Prêmio Governador do Estado de São Paulo para a Cultura, quando o projeto era chamado de “Galeria a Céu Aberto”.

Atualmente, o grupo também é responsável por vários projetos realizados na Vila Flávia, em São Mateus, que dialogam com comunidades periféricas ao redor do mundo.

Algumas dessas ações são realizadas pela organização não governamental (ONG) São Matheus em Movimento, que foi fundada pelo coletivo em 2008 e ganhou o status de maior articulador cultural da região. Hoje a ONG trabalha em parceria com vários grupos, oferecendo, além de apoio a artistas, cursos e oficinas gratuitas de diferentes tipos, para crianças e adolescentes.

 

O hip hop celebra 50 anos em 11 de agosto

 

O objetivo de Val e Toddy nessa viagem aos EUA é ampliar o campo de ação mundial do Opni, fazer conexões e abrir caminho para todos os envolvidos através da arte do hip hop. “Já estamos conectados com universidades, escolas públicas e instituições dos direitos civis, com o viés da Diáspora África e América Latina.”

"Estamos em Nova Orleans fazendo alguns trabalhos de grafite mesmo, fazendo a mescla do Brasil com Nova Orleans, que têm muito em comum: o jazz e o samba, por exemplo."

Eles voltam para Cleveland na próxima terça (13) para participar de um festival e realizar ações educativas em uma escola pública. Depois, voltam para Nova Orleans para concretizar grafites, e seguem para Los Angeles, onde acontecerá o festival da Five Points e um evento sobre os 50 anos do hip pop.

"Estão surgindo muitas possibilidades. Quando a gente chega aqui, nosso trabalho é novidade, tem bastante interesse e isso é muito bacana."